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Era sexta-feira, enquanto conversavam, ela fixou momentaneamente o olhar nos seus e durante esse breve período o tempo parou, na sua frente só aqueles olhos castanhos com uma profundidade imensa. E ele nunca se tinha perdido no olhar de ninguém!  

A confusão da hora de ponta ficou suspensa, como se não estivessem rodeados de rebuliço, até que se deu conta que não estava a ouvir nada do que ela estava a dizer, tentou concentrar-se e focou nos seus lábios… foi pior a emenda do que o soneto e o tempo parou outra vez, mas agora o coração acelerou, engoliu em seco enquanto desviou o olhar.  

Tenho de ter cuidado – pensou – estou completamente apanhado por ela e isto nota-se de certeza.  

Nesse momento ouviu-a perguntar – Estás bem? – ao mesmo tempo que lhe pegava carinhosamente na mão – Pareces nervoso, que se passa?  

Sentiu as fibras interiores estremecerem ao toque da pele suave da sua mão, coração aceleradíssimo e sensação de rubor a subir-lhe à face, envergonhado e a sentir os joelhos a tremer lá deixou sair um – ora essa, estou ótimo – ao mesmo tempo pensava que tinha de agir como um homem, mas só lhe saiu um sorriso perfeitamente idiota ao olhá-la novamente.  

Apertou-lhe ligeiramente a mão e ela delicadamente retirou-a, pareciam estar ambos atrapalhados, mas podia ser só imaginação sua, ela abriu a mala e retirou o telemóvel, deu uma rápida vista de olhos ao visor e voltou a guardá-lo. O coração dele continuava a bater rápido, o ambiente tornou-se constrangedor.  

Em toda a estação soou - Take care of your belongings. Pay special attention when entering and exiting the train – o metro nunca mais vem, ainda chego atrasada – diz ela com ar distraído e sempre sem o fixar.  

De facto a espera hoje estava a ser ligeiramente superior ao habitual, a plataforma já estava completamente cheia de gente, até que finalmente a composição deu entrada na estação. Já vinha à pinha!   

Entraram com alguma dificuldade e quando as portas fecharam deram conta que estavam literalmente esborrachados um no outro.  

O início do movimento da composição empurrou delicadamente o corpo dela ainda mais de encontro a ele – caraças, isto não veio nada a calhar – pensou. Para piorar a situação sentia-se a transpirar, já nem conseguia definir se por calor ou se por estar nervoso. O perfume dela invadiu-lhe as narinas, fechou os olhos e viveu o momento – Próxima estação, Saldanha, há correspondência com a linha amarela – O metro travou e em desequilíbrio por ir de olhos fechados deu-lhe uma ligeira cabeçada – ai desculpa – disse ao mesmo tempo que pensava – és um idiota!  

Ela sorriu, parecia divertida com as suas trapalhadas. Ele quer convida-la para jantar, respira fundo a ganhar coragem mas nesse preciso momento as portas abriram e ela que mantinha um sorriso aberto dirigiu-lhe um – bom fim de semana – e desandou apressadamente.  

Num primeiro impulso quis impedi-la, mas não se moveu, ainda não foi hoje, falta-lhe coragem, jeito ou tudo isto junto.  

Conhecia-a mais ou menos há dois anos, na maioria dos dias encontra-a na pastelaria onde vai todas as manhãs e daí seguem para o metro, começaram a falar primeiro sobre o tempo ou outras conversas de circunstância, depois passou a ser a descoberta de um amigo em comum o pretexto, mas ao longo dos meses ganharam lentamente confiança um com o outro, tendo ela inclusivamente desabafado algumas coisas da sua vida pessoal.   

É a alegria diária da sua vida, os dias podem ser longos e cheios de trabalho, mas de manhã acorda sempre bem disposto e com vontade de fazer o caminho até ao emprego… ou pelo menos até à estação de metro do Saldanha!  

Hoje tinha sido intenso, o perfume dela ainda lhe estava impregnado na mão – estou apaixonado – pensou – tenho de fazer algo, mas o quê?! Meus Deus, sou mesmo um banana inseguro! – e continuou nestes pensamentos, arquitetando planos que sabia à partida não passarem de planos, recordando-se do seu sorriso, do olhar, do toque…  

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Linha Vermelha, existem perturbações na circulação, o tempo de espera pode ser superior a 15 minutos – ele mantém-se inexpressivo, os olhos olheirentos meio avermelhados estão fixos na parede do outro lado da plataforma. 

Está sozinho no meio da multidão – no mês passado estava com ela – pensou – se eu ao menos a tivesse convidado naquela sexta-feira, talvez ela se tivesse atrasado um minuto, até menos de um minuto bastava.  

Percorreu mentalmente toda aquela manhã até ao último sorriso que lhe dirigiu, os dias seguintes em que achou estranho ela não ter aparecido e por fim a conversa com o Jorge, o amigo em comum que encontrou por casualidade na pastelaria habitual. 

Foi ele que lhe contou: na tal manhã ela foi encontrar aquilo que ninguém quer na passadeira mesmo em frente ao seu local de trabalho.  

Deixou de segurar as lágrimas - deixa-as cair, que importa? Ao menos as lágrimas não deixes para amanhã.